O título, retirado de uma história em quadrinhos desenhada por meu irmão, quer evocar iminências contidas na expressão “vou te pegar”, presentes no perigo de uma ação policial ou no riso de uma brincadeira de criança. Riso e risco estão na essência da minha investigação sobre o auto-retrato na contemporaneidade, proposto como tema no grupo de estudos de arte do prof. Charles Watson que eu frequentava em 2014.
A polícia me pegou em 1977, aos 21 anos, enquanto protestava numa passeata-relâmpago contra a ditadura militar. Do fato restou a fotografia de minha ficha policial adormecida nos arquivos do DOPS SP por 40 anos e que eu nunca tinha visto.
Resgatar meu próprio rosto naquela fotografia - que emoções carregaria naquele instante? - foi minha primeira ação de auto-retrato.
A representação do próprio rosto, tema recorrente na história da arte, é sempre uma negociação entre os meios técnico-conceituais adotados e a escolha de como quero ser visto. E eu, como queria ser vista? Decidi fazer surpresa de mim mesma, me revelando através do “outro”, buscando o “outro” como espelho e como meio de enfraquecer meu poder absoluto na construção da minha própria imagem.
Esse jogo de construção coletiva acabou por esvaziar a minha individualidade numa galeria de retratos que compunham um rosto genérico, do gênero humano, ora compartilhado ludicamente com transeuntes, ora esquadrinhado e capturado por tecnologias manipuladas por interesses escusos.
Mayra Rodrigues
Março 2018
O processo em capítulos
Capítulo 1 – Na Cidade da Polícia do Rio de Janeiro
Entrei na Cidade da Polícia do Rio de Janeiro - friozinho no estomago e o rosto coberto com lenço, chapéu e óculos de sol - com a tarefa de me auto descrever para o Inspetor Ferreira, chefe da Seção de Retrato Falado que aceitou minha proposta e, não só executou o desenho final do meu auto-retrato falado, como me atualizou nas técnicas policiais de reconhecimento facial. Nestas, o desenho e a memória descritiva foram substituídos pela fotografia e estão na base do software americano “Faces”, ainda em uso, e do kit em papel fotográfico “PhotoFit” , utilizado nos anos 70.
“Faces” e “PhotoFit” colocam à nossa disposição, uma coleção de olhos, bocas, sobrancelhas, narizes, cabelos, que, por estarem apartados do seu corpo original, remetem a ex-votos, sem sexo e sem fé, a espera de ativação que os reúna outra vez como rosto, rosto esse que passará por inúmeras mutações até que a testemunha reconheça nele, o rosto do perseguido.
Do contato com esses materiais fiz os vídeos “Faces” e “Baralho” em parceria com o Inspetor Ferreira, que também fez, a meu pedido, a versão do meu rosto com as peças originais do kit “Photo-Fit”.
São trabalhos que mostram a intimidade do inspetor na lida com essas ferramentas. Intimidade que, por estar desviada de sua função original de identificar e prender alguém, se mostra – arrisco dizer – mais exibicionista do que repressora, porque oferece ao observador um lugar seguro, sem risco, de onde este pode exercer um voyeurismo crítico. E talvez até sorrir, como ocorreu comigo, com o lúdico gesto em “Baralho”, o desfile de rostos mutantes e transgêneros em “Faces” ou a beleza plástica, vintage e ingênua, do kit Photo-Fit.
Utilizei também esses pedaços de rostos em outras dimensões, intenções e materiais, como as pinturas em óleo sobre tela – “Rosto tríptico” e “Vazados”, o objeto em resina “Cubo mágico”, a instalação “Voile” e a escultura “Pilha”.
Capítulo 2 – Nas ruas do Rio
Seguindo outra trilha fui para a rua convidar 58 pessoas - minha idade na ocasião (2014) - para colaborar na composição do meu auto-retrato. Me colocando frente a frente desse “outro” como se estivesse diante de um espelho, gravei com celular a resposta de cada um à minha pergunta:
“O que mais se destaca no meu rosto?”
As “58 respostas” devolveram um rosto absurdo - 60% olhos, 15% sobrancelhas e 10% de resto – que a imaginação aproximava do mitológico Argos Panoptes de 100 olhos, e que tentei em vão representar com desenho livre. Mas por outro lado, traçava também um rosto estatístico e preciso, que me levou a construir os desenhos “Milimetrados”. Nestes, utilizei cores, quadrados e linhas ligando letras que escrevem as palavras “olhos”, “boca”, etc, para representar com rigor cada uma das 58 respostas colhidas. À medida que eu obedecia à lógica do enunciado, as formas tradicionais do rosto humano se desfaziam.
Capítulo 3 - DOPS e Biometria
De todos os trabalhos, o único que mostra um rosto humano íntegro é o de minha ficha do DOPS. E mesmo esse, como os demais, fugiu ao meu controle. Ao contrário, foi feito para me controlar e sendo assim, uma pergunta se impôs: qual a imagem com o objetivo de controle social na contemporaneidade?
A resposta veio enquanto “navegava”, pelo Livro do Rosto, o FaceBook, do programador e empresário norte-americano Mark Zuckerberg , a qual aceitamos chamar ingenuamente de “rede social”.
Assim como na história em quadrinhos “Mundo do Espelho” de Mandrake, vislumbrei um mundo avesso e espelhado do FaceBook, onde nossos traços físicos e desejos , convertidos em padrões binários, circulam autônomos e clandestinos, segundo interesses talvez opostos aos da identidade matriz.
Meu rosto biométrico chegou por email enviado por Antonio Carlos Censi, diretor da empresa de biometria Montreal: um quadrado digital quase todo preto que associei imediatamente à pintura seminal da arte abstrata, o Quadrado Preto sobre fundo branco do ucraniano Kazimir Malevich (1915), sendo que nesta, o pouco branco é o vazamento orgânico da tela de fundo por entre o craquelado da centenária tinta preta e no outro, o branco é o vazamento da luz dos celulares e computadores ordenada segundo padrões que criam um aspecto rugoso.
Reunindo em díptico meu rosto analógico do DOPS e meu rosto biométrico da Montreal, ofereço a vocês uma pequena síntese de vivências e revoluções no lapso de 40 anos e me despeço com um emocionante pensamento de Walter Benjamin em “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”:
“Na expressão fugaz de um rosto humano, a aura acena das primeiras fotografias pela última vez.”